Mateus 6:33 é um dos versículos mais citados quando o assunto é dinheiro. Nesta primeira página, situamos a frase dentro do Sermão do Monte para entendê-la com mais profundidade.
Página 1 de 3
Poucos versículos são tão citados em conversas sobre dinheiro quanto Mateus 6:33. Numa paráfrase, Jesus orienta a buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, confiando que as demais coisas serão acrescentadas. A frase aparece em quadros de parede, cartões de aniversário e legendas de redes sociais. Mas qual é o contexto em que ela foi dita? A quem Jesus falava? E o que significava, para aquela gente, buscar o Reino? Nesta primeira página, vamos situar o versículo dentro do Sermão do Monte, para entendê-lo com mais profundidade.
Um sermão em três capítulos
O Sermão do Monte ocupa os capítulos 5, 6 e 7 do Evangelho de Mateus. É o primeiro grande bloco de ensinamentos de Jesus nesse Evangelho. Ele começa com as bem-aventuranças e termina com a imagem de duas casas, uma construída sobre a rocha e outra sobre a areia. No meio, trata de temas muito variados: a raiva e a reconciliação, a fidelidade no casamento, a palavra verdadeira, o amor aos inimigos, a esmola, a oração, o jejum, o perdão, os tesouros, a ansiedade e o julgamento dos outros.
Muitos estudiosos acreditam que Mateus reuniu nesse sermão ensinamentos que Jesus proferiu em ocasiões diferentes, organizando-os de forma didática. Lucas apresenta parte do mesmo material de modo mais curto, no chamado Sermão da Planície. Seja como for, o conjunto funciona como um retrato da vida no Reino de Deus, uma espécie de carta de princípios para os discípulos.
Quem ouvia Jesus
Para entender o sermão, ajuda imaginar o público. Mateus conta que grandes multidões seguiam Jesus, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão. Eram, em sua maioria, camponeses, pescadores, artesãos, diaristas, mulheres, crianças, doentes. Gente que vivia sob o domínio do Império Romano, pagando tributos pesados a Roma, aos governantes locais e ao Templo.
Para muitos deles, a pergunta sobre o que comer amanhã não era retórica. A economia da Galileia no primeiro século era marcada pela concentração de terras e pelo endividamento de pequenos agricultores. Quando Jesus fala de não se preocupar com comida e roupa, ele não está se dirigindo a pessoas ricas e entediadas, mas a quem conhecia a insegurança de perto.
O que vem antes do versículo
Mateus 6:33 é a conclusão de um raciocínio que começa alguns versículos antes. Jesus fala primeiro dos tesouros: não acumulem tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam, mas no céu. E acrescenta uma frase decisiva: onde estiver o seu tesouro, ali estará também o seu coração.
Em seguida, ele fala do olho como lâmpada do corpo, uma imagem que, na cultura judaica, estava ligada à generosidade. O olho bom era o olho generoso; o olho mau, o olho avarento. Depois vem a afirmação de que ninguém pode servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro.
Só então Jesus passa a tratar da ansiedade. Ele convida a olhar as aves do céu, que não semeiam nem colhem e, ainda assim, são alimentadas pelo Pai celeste. Fala dos lírios do campo, que não trabalham nem fiam, e no entanto nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles. Pergunta quem, por mais que se preocupe, consegue acrescentar uma hora à própria vida.
É nesse contexto que surge o convite: busquem primeiro o Reino e a sua justiça. E o trecho termina com uma frase realista: não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações; basta a cada dia o seu próprio mal.
O que significa Reino de Deus
A expressão Reino de Deus, ou Reino dos Céus, como Mateus prefere por respeito judaico ao nome divino, é o centro da pregação de Jesus. Não se refere a um território geográfico nem apenas a um lugar depois da morte. Trata-se do governo de Deus, da sua vontade sendo feita na terra como no céu, como rezamos no Pai-Nosso.
Onde o Reino se manifesta, os famintos são saciados, os doentes são cuidados, os excluídos são acolhidos, os inimigos se reconciliam, os pobres recebem boas notícias. As bem-aventuranças, no início do sermão, descrevem justamente quem pertence a esse Reino: os pobres em espírito, os que choram, os mansos, os que têm fome e sede de justiça, os misericordiosos, os puros de coração, os que promovem a paz.
Buscar o Reino em primeiro lugar, portanto, é orientar a vida pelas prioridades de Deus. É fazer do amor, da justiça e da misericórdia o critério das escolhas, inclusive das escolhas financeiras.
E a sua justiça
O versículo não fala apenas do Reino, mas também da sua justiça. No vocabulário bíblico, justiça é uma palavra rica. Envolve retidão pessoal, fidelidade à aliança e também relações justas na sociedade. No Sermão do Monte, Jesus diz que a justiça dos discípulos deve ser maior que a dos escribas e fariseus, não no sentido de mais regras, mas de uma fidelidade que alcança o coração.
Aplicada ao dinheiro, essa justiça inclui pagar salários dignos, cumprir contratos, não explorar o vizinho, não enganar na balança, ajudar o necessitado. Buscar a justiça do Reino é recusar ganhos obtidos à custa do sofrimento alheio.
O que serão as demais coisas
Jesus promete que as demais coisas serão acrescentadas. Que coisas são essas? O contexto deixa claro: comida, bebida e roupa. As necessidades básicas da vida. Não se trata de luxo, enriquecimento ou sucesso financeiro. É a garantia de que o Pai sabe do que precisamos.
Também vale notar que a promessa é feita a uma comunidade, não a indivíduos isolados. No Reino de Deus, as pessoas partilham. A Igreja primitiva, como relata Atos, vivia de tal forma que ninguém entre eles passava necessidade. Muitas vezes, as demais coisas chegam por meio da solidariedade dos irmãos.
Leituras equivocadas
Esse versículo às vezes é usado de modo distorcido. Uma leitura afirma que, se a pessoa buscar a Deus, ficará rica, como se a fé fosse uma estratégia de investimento. Outra leitura, oposta, sugere que o cristão não deve planejar nada, apenas confiar e esperar.
Nenhuma das duas se sustenta diante do conjunto das Escrituras. Jesus não prometeu riqueza aos discípulos; muitos deles viveram e morreram pobres. E a mesma Bíblia que fala das aves do céu elogia a formiga que se prepara para o inverno e o construtor que calcula os custos. A confiança não elimina a responsabilidade. Ela muda a ordem das prioridades e o estado do coração.
As aves também trabalham
Há um detalhe curioso no exemplo das aves. Elas não semeiam nem colhem, diz Jesus, mas isso não significa que fiquem paradas esperando a comida cair do céu. Qualquer pessoa que observe passarinhos sabe que eles passam o dia procurando alimento, construindo ninhos, cuidando dos filhotes. A diferença é que não acumulam celeiros por ansiedade.
Essa imagem ajuda a entender o equilíbrio proposto por Jesus. Trabalhar, sim. Cuidar da casa, sim. Mas sem a angústia de quem acha que tudo depende apenas de si e sem o desejo de acumular além do necessário.
O Pai-Nosso no centro do sermão
Não é por acaso que a oração do Pai-Nosso aparece exatamente no meio do Sermão do Monte, no capítulo 6, pouco antes do trecho sobre a ansiedade. Ela antecipa, em forma de oração, aquilo que Jesus depois explica em forma de ensino. Primeiro, pede-se que o nome de Deus seja santificado, que venha o seu Reino e que a sua vontade seja feita. Só depois se pede o pão de cada dia, o perdão das ofensas e a libertação do mal.
A sequência é reveladora. As necessidades humanas não são ignoradas: o pão está ali, no centro da oração. Mas elas vêm depois do Reino, e o pão é pedido no plural, para nós, e para hoje. Quem reza o Pai-Nosso com atenção já está treinando a ordem de prioridades que Mateus 6:33 propõe. É uma oração que pede o suficiente, não o excesso, e que lembra o irmão ao lado.
Renovação da mente
O apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, oferece uma chave complementar. Ele exorta os cristãos a não se conformarem com o padrão deste mundo, mas a serem transformados pela renovação da mente, para discernirem qual é a vontade de Deus. Buscar o Reino em primeiro lugar exige justamente essa mudança de mentalidade. O mundo ao redor costuma medir o valor de uma pessoa pelo que ela possui e pelo que consome. O Reino mede pela fidelidade, pelo amor e pela justiça. Essa inversão não acontece de uma vez, mas é cultivada dia após dia, pela oração, pela leitura das Escrituras e pela convivência com a comunidade.
Por que primeiro
A palavra primeiro é essencial no versículo. Jesus não pede que se abandone o cuidado com a vida material. Ele estabelece uma ordem. Quando o Reino ocupa o primeiro lugar, as outras coisas encontram o seu lugar correto. Quando o dinheiro ou a segurança ocupam o primeiro lugar, tudo se desorganiza, inclusive as relações e a própria fé.
Na prática, isso significa perguntar, antes de decisões importantes: essa escolha me aproxima ou me afasta do amor a Deus e ao próximo? Ela é justa? Ela respeita a minha família, a minha saúde e a minha comunidade? Na página 2, vamos aplicar essa lógica ao orçamento doméstico.
Para meditar
- Onde está o meu tesouro, e o que isso revela sobre o meu coração?
- Que preocupações com o amanhã têm roubado a minha paz hoje?
- O que significaria, concretamente, colocar o Reino em primeiro lugar nesta semana?
Oração
Pai nosso, que conheces as nossas necessidades antes mesmo de pedirmos, ensina-nos a buscar primeiro o teu Reino e a tua justiça. Liberta-nos da ansiedade que nos faz correr sem rumo e da avareza que nos fecha para o próximo. Dá-nos o pão de cada dia e um coração disponível para partilhar. Amém.
Resumo desta página
Mateus 6:33 faz parte do Sermão do Monte, que ocupa os capítulos 5 a 7 de Mateus. Jesus falava a pessoas simples, que conheciam a insegurança material. O versículo conclui um trecho sobre tesouros, dois senhores e ansiedade. Buscar o Reino e a sua justiça é orientar a vida pelas prioridades de Deus, e as demais coisas prometidas são as necessidades básicas, vividas em comunidade. Na página 2, vamos aplicar essas prioridades ao orçamento.
Quer uma oração especial hoje?
