Os Salmos são o livro de orações que Jesus rezou e que a Igreja reza há séculos. Nesta primeira página, conheça os salmos de ação de graças e o que torna cada um deles único.
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Há livros da Bíblia que lemos para aprender a história do povo de Deus, outros para conhecer os ensinamentos de Jesus, outros para entender a fé dos apóstolos. O livro dos Salmos é diferente: ele foi feito para ser rezado e cantado. São cento e cinquenta poemas que expressam toda a gama das emoções humanas diante de Deus, da alegria ao lamento, da raiva à confiança, do medo à gratidão.
Neste guia em três páginas, vamos nos concentrar nos salmos de ação de graças. Nesta primeira parte, conheceremos alguns dos principais e o que cada um ensina. Na página 2, veremos como rezá-los em família. Na página 3, você encontrará um roteiro de sete noites para experimentar essa prática em casa.
Um livro de orações compartilhado
Os salmos nasceram ao longo de vários séculos. Muitos são atribuídos a Davi, mas há também salmos de Asafe, dos filhos de Coré, de Moisés e de autores anônimos. Eram cantados no templo de Jerusalém, nas sinagogas, nas peregrinações e nas casas.
Jesus cresceu rezando os salmos. Na cruz, suas palavras ecoam o início do Salmo 22. Os apóstolos e as primeiras comunidades cristãs continuaram cantando esses poemas. Ao longo dos séculos, monges, freiras, pastores e famílias inteiras fizeram dos salmos a base da oração diária. Até hoje, católicos rezam os salmos na Liturgia das Horas, e muitas igrejas evangélicas cantam versões musicadas deles.
Rezar os salmos é, portanto, juntar a própria voz a um coro que atravessa três mil anos.
O que é um salmo de ação de graças
Os estudiosos costumam classificar os salmos em alguns tipos: hinos de louvor, lamentações, salmos reais, salmos de sabedoria e salmos de ação de graças, entre outros. Os de ação de graças geralmente seguem um movimento parecido: o salmista lembra de uma dificuldade, conta como clamou a Deus, relata a resposta recebida e convida a comunidade a agradecer junto.
A gratidão nos salmos raramente é abstrata. Ela nasce de experiências concretas: uma doença curada, um perigo superado, uma colheita recebida, uma libertação. E quase sempre é compartilhada. O salmista não agradece em silêncio; ele quer que todos saibam o que Deus fez.
Salmo 100: entrar pelas portas com gratidão
O Salmo 100 é curto, alegre e foi feito para ser cantado em procissão. Ele convida toda a terra a aclamar o Senhor, a servi-lo com alegria e a apresentar-se diante dele com cânticos. Em seguida, recorda que foi Deus quem nos fez e que somos o seu povo, as ovelhas do seu rebanho.
O versículo mais conhecido convida a entrar pelas portas do templo com ações de graças e pelos seus átrios com louvor. A imagem é de um povo que chega à casa de Deus já agradecendo, antes mesmo de pedir qualquer coisa. O salmo termina lembrando que o Senhor é bom, que o seu amor dura para sempre e que a sua fidelidade passa de geração em geração.
Esse salmo ensina que a gratidão pode ser a porta de entrada da oração. Começar agradecendo muda a disposição do coração.
Salmo 103: não esquecer nenhum benefício
O Salmo 103 é um diálogo do salmista com a própria alma. Ele diz a si mesmo: bendiga o Senhor, ó minha alma, e não esqueça nenhum dos seus benefícios. Em seguida, enumera esses benefícios: Deus perdoa as culpas, cura as enfermidades, resgata a vida da cova, coroa de amor e compaixão, satisfaz de bens e renova as forças como as da águia.
Um dos trechos mais tocantes compara Deus a um pai que se compadece dos filhos, porque conhece a nossa fragilidade e se lembra de que somos pó. A vida humana é comparada à erva e à flor do campo, que passam depressa. Mas o amor do Senhor permanece para sempre.
Esse salmo ensina um exercício precioso: lembrar. A ingratidão muitas vezes é apenas esquecimento. Recordar intencionalmente os cuidados recebidos é um antídoto contra a amargura.
Salmo 107: histórias de resgate
O Salmo 107 é uma espécie de mosaico de testemunhos. Ele descreve quatro grupos de pessoas em perigo: viajantes perdidos no deserto, prisioneiros nas trevas, doentes à beira da morte e marinheiros em meio à tempestade. Cada grupo clama ao Senhor na angústia, e cada um é libertado.
Depois de cada cena, repete-se um refrão que convida a agradecer ao Senhor pelo seu amor e pelas maravilhas que faz em favor das pessoas. A repetição cria um ritmo, quase como se o salmo fosse cantado por vários coros, cada um contando a sua própria história.
Esse salmo mostra que a gratidão cresce quando é partilhada. Ouvir como Deus agiu na vida de outras pessoas fortalece a fé de todos. Muitas famílias e comunidades fazem algo parecido quando reservam um momento para que cada um conte um motivo de agradecimento.
Salmo 136: o amor que dura para sempre
O Salmo 136 tem uma estrutura única. Cada um dos seus vinte e seis versículos termina com a mesma frase: porque o seu amor dura para sempre. A primeira parte de cada verso conta algo que Deus fez: criou os céus, fez as grandes luzes, libertou Israel do Egito, abriu o mar, guiou o povo no deserto, deu alimento a todo ser vivo.
Na liturgia judaica, esse salmo era provavelmente cantado em forma responsorial: um solista entoava a primeira parte e o povo respondia com o refrão. É um formato perfeito para rezar em grupo, inclusive com crianças, que logo decoram a resposta.
Esse salmo ensina que toda a história, da criação ao pão de cada dia, pode ser lida como sinal do amor fiel de Deus.
Salmo 23: gratidão pela companhia
Embora não seja classificado estritamente como salmo de ação de graças, o Salmo 23 é uma das orações de confiança e gratidão mais amadas do mundo. Começa com a afirmação de que o Senhor é pastor e, por isso, nada falta. Fala de pastos verdes, águas tranquilas, refrigério para a alma, caminhos retos, companhia no vale escuro, mesa preparada e cálice transbordante.
A gratidão do Salmo 23 não depende de ausência de problemas. O vale da sombra está lá, assim como os inimigos. Mas a presença do pastor transforma a experiência. É uma gratidão que nasce da confiança.
Salmo 128: gratidão pela vida simples
O Salmo 128 descreve a felicidade de quem teme ao Senhor e anda nos seus caminhos. Essa pessoa comerá do trabalho das próprias mãos, terá a esposa como videira fecunda e os filhos como brotos de oliveira ao redor da mesa. O salmo termina desejando ver os filhos dos filhos.
É um salmo de gratidão pelas bênçãos cotidianas: o trabalho, a família, a refeição partilhada, a vida longa. Por isso, é muito rezado em casamentos e celebrações familiares.
A gratidão também no Novo Testamento
Os apóstolos herdaram dos salmos o hábito da gratidão. Paulo pede aos tessalonicenses que deem graças em todas as circunstâncias, porque essa é a vontade de Deus em Cristo Jesus. Aos colossenses, recomenda cantar salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão no coração.
Note que Paulo não pede para agradecer por todas as circunstâncias, como se a doença ou a injustiça fossem boas em si mesmas. Pede para agradecer em todas elas, reconhecendo que, mesmo nos momentos difíceis, há sinais da presença de Deus.
Por que rezar com os salmos
Alguém pode perguntar: por que usar palavras antigas em vez de rezar com as próprias palavras? As duas formas são válidas e se complementam. Mas os salmos oferecem algumas vantagens:
- Ensinam uma linguagem de oração quando faltam palavras.
- Ampliam o olhar, lembrando motivos de gratidão que talvez esquecêssemos.
- Unem quem reza à comunidade de fé de todos os tempos.
- Equilibram a oração, que tende a ficar concentrada apenas em pedidos.
- Permitem expressar emoções sinceras diante de Deus, inclusive as difíceis.
Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano alemão, escreveu que os salmos são a oração que Deus mesmo nos ensina, como um pai que ensina o filho a falar repetindo as palavras com ele.
Gratidão e saúde emocional
Pesquisas em psicologia têm observado que a prática regular da gratidão está associada a mais bem-estar, melhor qualidade do sono e relações mais saudáveis. Essas descobertas não provam nada sobre Deus, mas mostram que a sabedoria dos salmos dialoga com o que a ciência observa sobre o ser humano.
Para o cristão, a gratidão não é apenas uma técnica de bem-estar. É uma resposta de amor a quem nos amou primeiro. Ainda assim, é bonito perceber que essa resposta também faz bem ao corpo e à mente.
Salmos e organização da vida
Pode parecer estranho associar salmos de gratidão à vida financeira, mas a relação é antiga. Quem agradece com frequência tende a perceber melhor o que já tem e a sentir menos necessidade de compensar vazios com compras. O Salmo 23, ao afirmar que nada falta a quem é guiado pelo pastor, não descreve uma conta bancária cheia, mas um coração que reconhece o suficiente.
Muitas famílias relatam que, ao introduzir momentos de gratidão na rotina, passaram a conversar com mais tranquilidade sobre dinheiro, a valorizar refeições simples em casa e a distinguir melhor entre desejos e necessidades.
Como começar sozinho
Antes de levar os salmos para a família, você pode experimentar sozinho. Escolha um dos salmos citados nesta página e leia-o devagar, em voz baixa, uma vez por dia durante uma semana. A cada leitura, sublinhe uma frase que chame a sua atenção e repita-a mentalmente ao longo do dia. No fim da semana, escreva com as suas palavras um pequeno salmo de gratidão inspirado no que leu.
Resumo desta página
O livro dos Salmos é o grande livro de orações da tradição judaica e cristã. Os salmos de ação de graças lembram dificuldades superadas e convidam a agradecer em comunidade. O Salmo 100 ensina a entrar na oração agradecendo; o 103, a não esquecer os benefícios; o 107, a partilhar testemunhos; o 136, a ver o amor fiel de Deus em toda a história. Os salmos 23 e 128 acrescentam a gratidão pela companhia de Deus e pela vida simples. Na página 2, veremos como rezar esses salmos em família.
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