Dízimo Explicado: História, Significado e Diferentes Visões – Parte 2: Dízimo, ofertas e generosidade no Novo Testamento

Dízimo, ofertas e generosidade no Novo Testamento. Guia em 3 páginas sobre dízimo.

Na página anterior, conhecemos o dízimo no Antigo Testamento, com as suas finalidades de culto, celebração e justiça social. Agora vamos ao Novo Testamento, onde o tema aparece de forma surpreendentemente discreta, enquanto a generosidade ganha destaque.

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Também veremos como diferentes tradições cristãs, católicas, protestantes históricas, pentecostais e outras, entendem hoje a contribuição dos fiéis. O objetivo é informar com respeito, sem impor uma única visão.

O que Jesus disse sobre o dízimo

Nos evangelhos, Jesus menciona o dízimo apenas em poucos momentos, sempre em discussões com fariseus. No mais conhecido, ele critica quem dá o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, ervas de pouco valor, mas negligencia os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. E conclui que era preciso fazer estas coisas sem omitir aquelas.

A frase tem sido lida de maneiras diferentes. Alguns entendem que Jesus confirma o dízimo, já que diz para não omiti-lo. Outros observam que ele falava a judeus ainda sob a Lei de Moisés, antes da cruz e da ressurreição, e que o foco da passagem é a crítica ao legalismo. Em ambas as leituras, fica claro que, para Jesus, a contribuição não pode estar separada da justiça e da misericórdia.

Na parábola do fariseu e do publicano, o fariseu se orgulha de jejuar duas vezes por semana e dar o dízimo de tudo. Jesus afirma que foi o publicano, que apenas pedia misericórdia, quem voltou justificado. Mais uma vez, o problema não é a prática em si, mas a atitude de quem a usa para se sentir superior.

A generosidade no centro

Se o dízimo aparece pouco, a generosidade aparece muito. Jesus elogia a viúva pobre que deposita duas pequenas moedas no tesouro do templo, dizendo que ela deu mais do que todos, porque deu do que lhe fazia falta. Ele ensina a dar esmola em segredo, sem tocar trombeta. Conta a parábola do bom samaritano, que gasta tempo e dinheiro com um desconhecido ferido. Convida o jovem rico a partilhar os bens com os pobres.

Nos Atos dos Apóstolos, as primeiras comunidades colocavam os bens em comum, e ninguém passava necessidade. Paulo cita uma frase de Jesus que não aparece nos evangelhos: “Mais bem-aventurado é dar do que receber”. A ênfase está na partilha concreta e na atenção aos necessitados.

Paulo e a coleta para Jerusalém

O texto mais detalhado sobre contribuição no Novo Testamento está nas cartas de Paulo aos Coríntios, quando ele organiza uma coleta para os cristãos pobres de Jerusalém. Alguns princípios saltam aos olhos.

A contribuição deveria ser voluntária: “Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama ao que dá com alegria”.

Deveria ser proporcional: cada um separava, no primeiro dia da semana, conforme a sua prosperidade. Paulo não fixa uma porcentagem.

Deveria buscar a igualdade: não se trata de aliviar uns e sobrecarregar outros, mas de que a abundância de uns supra a falta de outros.

E deveria ser administrada com transparência: Paulo faz questão de que pessoas escolhidas pelas comunidades acompanhem o dinheiro, para evitar qualquer suspeita.

É significativo que, ao tratar longamente de contribuição, Paulo não mencione o dízimo. Para alguns estudiosos, isso indica que a prática não era imposta às comunidades formadas por não judeus. Para outros, o silêncio não significa rejeição, e o princípio de sustentar a obra permanece.

O sustento dos ministros

Paulo também defende que quem anuncia o evangelho pode viver do evangelho, comparando com o boi que não deve ter a boca amarrada enquanto debulha. Ao mesmo tempo, ele próprio muitas vezes abriu mão desse direito, trabalhando como fabricante de tendas para não ser pesado às comunidades. O equilíbrio entre sustentar os ministros e evitar abusos é antigo.

Os Padres da Igreja e os primeiros séculos

Nos primeiros séculos do cristianismo, as comunidades sustentavam o culto, os ministros e os pobres por meio de ofertas voluntárias. A Didaqué, um dos escritos cristãos mais antigos fora do Novo Testamento, orienta a entregar as primícias aos profetas e, na falta deles, aos pobres. Justino, no século II, descreve as reuniões dominicais em que quem podia dava o que queria, e o dinheiro recolhido era usado para socorrer órfãos, viúvas, doentes, presos e estrangeiros.

Alguns Padres da Igreja, como Ireneu e, mais tarde, Agostinho e Jerônimo, mencionam o dízimo. Uns o apresentam como um mínimo que os cristãos deveriam superar, já que a justiça cristã deveria ser maior que a dos fariseus. Com o tempo, especialmente na Idade Média europeia, o dízimo tornou-se obrigatório e passou a ser cobrado como tributo, muitas vezes com apoio das autoridades civis. Essa obrigatoriedade gerou abusos e críticas, e foi abolida em diferentes países ao longo da era moderna.

Conhecer essa trajetória ajuda a entender por que o tema desperta reações tão diversas. Para alguns, o dízimo evoca a generosidade das primeiras comunidades; para outros, lembra tributos impostos de forma injusta. As duas memórias fazem parte da história.

Como a Igreja Católica entende o tema

Na Igreja Católica, um dos mandamentos da Igreja pede que os fiéis ajudem a prover às necessidades materiais da Igreja, cada um segundo as suas possibilidades. Não há uma porcentagem universal obrigatória. No Brasil, muitas paróquias adotam a Pastoral do Dízimo, que propõe uma contribuição mensal, livre e consciente, entendida como sinal de pertença à comunidade. A CNBB tem documentos que orientam essa pastoral, enfatizando as dimensões religiosa, eclesial, missionária e caritativa do dízimo.

Na Igreja Católica, fala-se com frequência em dízimo como contribuição de pertença à comunidade, enquanto muitas igrejas evangélicas o entendem como os dez por cento da renda; ambas as visões merecem respeito. Os recursos costumam ser destinados à manutenção da paróquia, às obras sociais e à missão.

Como igrejas protestantes e evangélicas entendem o tema

Entre as igrejas protestantes históricas, como presbiterianas, batistas e metodistas, é comum ensinar o dízimo de dez por cento como referência para a contribuição regular, acompanhado de ofertas voluntárias. Algumas enfatizam que se trata de um princípio de gratidão, não de lei. Outras preferem falar em contribuição proporcional, inspirada em Paulo, sem fixar porcentagem.

Muitas igrejas pentecostais e neopentecostais também ensinam o dízimo de dez por cento. Dentro desse universo há grande diversidade. Algumas lideranças evangélicas, inclusive, têm criticado publicamente a chamada teologia da prosperidade, que associa a contribuição a promessas de enriquecimento. Essa crítica também é feita por teólogos católicos e por organizações evangélicas que defendem uma leitura mais cuidadosa da Bíblia.

Ortodoxos e outras tradições

Nas igrejas ortodoxas, a contribuição costuma ser voluntária, e o dízimo é apresentado por alguns como ideal, não como regra. Em algumas igrejas luteranas e reformadas da Europa, o sustento das igrejas está ligado a impostos eclesiásticos recolhidos pelo Estado, uma realidade bem diferente da brasileira. Essa variedade mostra que não há uma única forma cristã de organizar a contribuição.

Pontos de convergência

Apesar das diferenças, há convergências importantes. Quase todas as tradições concordam que a contribuição deve ser livre e feita com alegria, que deve considerar a realidade de cada família, que precisa ser bem administrada e com prestação de contas, que inclui o cuidado com os pobres e que não compra favores de Deus.

Também há consenso crescente de que nenhuma pessoa deve ser pressionada, humilhada ou ameaçada por não contribuir, nem incentivada a se endividar para dar. Promessas de retorno financeiro garantido em troca de contribuições são vistas com preocupação por muitas lideranças cristãs de diferentes denominações.

Sinais de alerta

Para se proteger de abusos, vale ficar atento a alguns sinais: pedidos de contribuição acompanhados de promessas de cura ou riqueza garantidas; pressão para entregar bens, cartões ou empréstimos; ausência total de prestação de contas; discursos que culpam a pessoa pelas dificuldades por não ter contribuído o suficiente. Comunidades saudáveis acolhem quem não pode contribuir e apresentam relatórios sobre o uso dos recursos.

Transparência na comunidade

Quem contribui tem o direito de saber, de forma respeitosa, como os recursos são usados. Igrejas saudáveis costumam apresentar prestações de contas periódicas, com informações sobre manutenção, salários, projetos sociais e missões. Se você tem dúvidas, procure a liderança com educação e pergunte. A transparência fortalece a confiança e ajuda a comunidade a crescer unida. Ela também protege contra abusos, que infelizmente existem, e lembra que a contribuição é um ato de adoração e de cuidado mútuo, não uma transação comercial.

Perguntas para conversar

Se você participa de um grupo de estudo bíblico ou de uma pastoral, estas perguntas podem ajudar na conversa. O que mais chamou a sua atenção na coleta organizada por Paulo? Por que você acha que Jesus elogiou a oferta da viúva pobre? Como a sua comunidade presta contas dos recursos recebidos? De que forma a contribuição pode expressar gratidão, e não medo ou barganha? Como acolher quem, no momento, não tem condições de contribuir com dinheiro?

Resumo desta página

No Novo Testamento, o dízimo aparece pouco, sempre ligado à crítica ao legalismo, enquanto a generosidade, a partilha e a contribuição voluntária, proporcional e transparente ganham destaque. As tradições cristãs entendem a contribuição de formas diferentes, e todas merecem respeito. Na página 3, veremos como incluir a contribuição no orçamento familiar com consciência.